Prevenção do câncer: por que hábitos de vida importam (e muito)

Dr. Daniel Vargas Pivato de Almeida

1/24/20263 min read

A prevenção do câncer não depende apenas de fatores genéticos ou do acaso. Uma parte importante do risco de desenvolver a doença ao longo da vida está relacionada a hábitos de vida, ou seja, escolhas cotidianas que, quando repetidas ao longo dos anos, influenciam processos biológicos ligados ao surgimento do câncer. Esse entendimento não vem de uma única pesquisa isolada, mas de décadas de estudos científicos.

Um dos fatores mais bem estabelecidos é o controle do peso corporal. O excesso de gordura não é apenas um aspecto estético: o tecido adiposo atua como um órgão ativo, capaz de aumentar inflamação crônica, alterar hormônios e favorecer resistência à insulina. Esses mecanismos criam um ambiente biológico que pode facilitar o desenvolvimento de alguns tipos de câncer. Por isso, manter um peso saudável, ou buscar uma redução gradual e sustentável quando há sobrepeso, é considerado uma das medidas preventivas mais relevantes. Pequenas mudanças consistentes ao longo do tempo têm mais impacto do que metas rígidas e difíceis de manter.

A prática regular de atividade física é outro pilar central da prevenção. Estudos com centenas de milhares de pessoas mostram que indivíduos fisicamente ativos apresentam menor risco de diversos tipos de câncer. O exercício ajuda a regular hormônios, reduzir inflamação, melhorar o metabolismo da glicose e contribuir para o controle do peso. As recomendações das principais organizações de saúde sugerem pelo menos 150 minutos semanais de atividade física moderada, como caminhadas rápidas, ou 75 minutos de atividade mais intensa, como corrida. Não é necessário se tornar atleta: o benefício está na regularidade e em reduzir o tempo excessivo sentado no dia a dia.

A alimentação também exerce um papel importante, mas não na forma de alimentos “milagrosos” ou dietas restritivas. A ciência aponta para a importância de padrões alimentares. Dietas baseadas principalmente em alimentos de origem vegetal, como frutas, verduras, legumes, grãos integrais e feijões, associadas a menor consumo de alimentos ultraprocessados, carnes processadas e excesso de açúcar, estão ligadas a menor risco de câncer. Uma alimentação equilibrada contribui tanto para a prevenção quanto para a saúde geral, mesmo sabendo que não existe garantia absoluta de proteção.

O consumo de álcool merece atenção especial. Há evidências consistentes de que bebidas alcoólicas aumentam o risco de vários tipos de câncer, incluindo mama, fígado, esôfago, boca e intestino. Do ponto de vista da prevenção do câncer, a mensagem das grandes instituições é clara: quanto menor o consumo, melhor, e a opção mais segura é não beber. Mesmo pequenas quantidades podem aumentar o risco ao longo do tempo, especialmente quando associadas a outros fatores desfavoráveis.

Esses conhecimentos são continuamente discutidos e atualizados em grandes congressos científicos, onde pesquisadores do mundo inteiro apresentam novos dados sobre estilo de vida, sedentarismo, alimentação e risco de câncer. Embora nem todo estudo isolado traga respostas definitivas, o conjunto das evidências aponta sempre na mesma direção: hábitos saudáveis, mantidos de forma consistente, reduzem a probabilidade de desenvolver a doença.

É importante ser honesto: adotar hábitos saudáveis não elimina completamente o risco de câncer. A biologia humana é complexa e nem tudo está sob nosso controle. Ainda assim, essas escolhas aumentam as chances de uma vida mais longa e saudável, além de trazer benefícios para o coração, o metabolismo, a disposição física e o bem-estar mental. Em outras palavras, não se trata de promessas milagrosas, mas de inclinar as probabilidades a favor da saúde. E, quando falamos em prevenção do câncer, isso já representa um ganho enorme.